Nov 13 2007

Por que dão os portugueses?

Todos nós, de um modo recorrente, somos solicitados para dar. A face mais visível desse pedido assume a forma de peditórios para instituições com fins não lucrativos ou tão simplesmente a mão estendida do nosso próximo, numa rua das nossas localidades. Mas também outros nos pedem o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa presença efectiva.

 

A Economia da Dádiva é um ramo recente da Ciência Económica que se debruça sobre estes assuntos. Perceber melhor porque damos valores que nos foram custosos a adquirir, porque escolhemos montantes variados para receptores diferentes e porque completamos a nossa dádiva material com outros recursos são algumas das questões concretas tratadas, em particular, por esta disciplina.

 

Assinei, neste ano de 2007, o artigo Portuguese Public Collections and the economic cycle: a seminal study, publicado na prestigiada revista científica “International Journal of Social Economics” e discutido na conferência deste ano da European Association for Evolutionary Political Economy. Esse artigo reflecte uma investigação desenvolvida no sentido de auscultar factores que possam explicar as diferenças de valores doados para as campanhas de peditórios públicos a cargo da Liga Nacional contra o Cancro, observados nos concelhos do Norte de Portugal. Este trabalho revela assim um esforço pioneiro no nosso país, preenchendo uma lacuna substancial numa questão tão importante como é a de se saber por que dão os portugueses.

 

Foram testados diversos factores potenciais. No entanto, factores como o rendimento per capita, a taxa de fecundidade, a percentagem de população feminina ou a dimensão populacional não revelaram a importância que encontraram noutros estudos efectuados em países alternativos.

 

Ao invés, foram validados estatisticamente a importância do ciclo económico regional (quando a economia local cresce, crescem também os valores angariados), a importância da presença na vida activa dos doadores (os municípios onde a percentagem de população activa é maior revelam também maiores valores doados) e a relevância de factores institucionais, como uma maior propensão à nupcialidade, que estimula um maior crescimento dos valores dados para estes peditórios.

 

Provou-se assim que a dádiva encontra-se fornecida, principalmente, pela parte temporária do rendimento (e não pela componente permanente) validando a percepção de que “se dá quando se pode” assim como para o espectro sócio-económico do norte do país o efeito compensatório se produz com simetria ao observado em áreas mais ricas do globo: no norte de Portugal e no período analisado (entre 2002 a 2005), a generosidade é mais acentuada durante a vida activa, diminuindo após a reforma. A explicação mais robusta tende a apontar os valores discretos das pensões assim como sentimentos de insegurança enquanto motivos desta alteração comportamental na transição entre a vida activa e o período de reforma. No entanto, como outros estudos demonstraram, por vezes, a diminuição dos valores quantificáveis monetariamente é compensada pelo acréscimo de dádivas de tempo ou de bens, como acontece com os avós que preferem transformar os presentes dados aos netos em presenças junto destes.

 

 

 


Nov 4 2007

A seara e os trabalhadores

No passado mês de Outubro, muitas vozes exprimiram a sua opinião relativamente ao tema tradicional deste período no ano da pastoral católica – o problema da Missão e da Vocação.

 

Ainda que a Missão seja um imperativo de todo o baptizado, já a diversidade de Vocações permite uma reflexão premente sobre as tendências de forma que se vêm acentuando.

 

A tendência mais discutida na heterogeneidade de fóruns prende-se com o decréscimo persistente do número de sacerdotes católicos, fruto de um movimento demográfico natural em que, utilizando os dados mais recentes do Anuário da Igreja Católica, se constata que por cada dois sacerdotes falecidos só um sacerdote é ordenado, em Portugal.

 

As opiniões sobre este problema são muitas e diversificadas, vindas de comentadores católicos ou não, da hierarquia da Igreja ou de meros leigos. Na expressão destas opiniões, abundam aspectos idiossincráticos e particularidades. Numa tentativa de sistematizar a questão e de procurar testar hipóteses com capacidade de explicação deste movimento acentuado nos últimos trinta anos, desenvolvi a investigação “Why is the number of catholic priests diminishing in Portugal?” publicado na Regional and Sectorial Economic Studies (vol. 6-1, 2006) e diversas vezes citado pela agência noticiosa Ecclesia como um estudo pioneiro sobre a matéria.

 

Conclui-se nesse estudo que três factores podem ser apontados robustamente como responsáveis por este saldo natural negativo.

O primeiro factor, com grande peso, aponta o decréscimo da taxa de fertilidade na sociedade em geral. Observa-se que quando uma família tem menos filhos, tende a pressioná-los para que eles optem por uma carreira laica, pedindo ao filho único que reproduza o “status quo” familiar ou a continuidade da família.

O segundo factor prende-se com o aumento da taxa de divórcio e diminuição da nupcialidade, reflexo do denominado “medo do futuro” nas gerações mais jovens, que evitam compromissos duradouros, como o casamento ou a concretização das vocações religiosas consagradas.

Como terceiro factor, aponta-se a diminuição do número de religiosos no total, como sintoma de um “arrefecimento” do fervor religioso e de um clima de algum desinteresse pela consagração do ministério sacerdotal. Uma religiosidade efervescente facilita o número de candidatos à vocação sacerdotal. Ao contrário, uma diminuição desse sentimento despoleta uma diminuição de vida consagrada.

Muitas outras variáveis foram testadas mas não devolveram os resultados estatísticos consistentes que as três dimensões denunciam neste estudo já discutido noutros países que tinha por objectivo olhar além das razões individuais e apontar os motivos principais desse movimento, que se sente principalmente a partir de 1980.

Estes factores pedem uma consciencialização interna na Igreja. Se as pessoas, especialmente os jovens chamados à vocação sacerdotal, não tiverem uma informação adicional sobre o mundo do sacerdócio e não virem o sacerdócio como uma vocação de resposta actual no mundo de hoje, optam por outras alternativas. É pois necessário um papel mais activo dos grupos e do próprio universo católico, na medida em que através de uma consciencialização global e de uma dinâmica a nível paroquial se pode inverter esta tendência, mostrando a todos os interessados uma visão de uma religião cristã actualizada e presente.

Dentro destas dinâmicas, houve uma resposta promissora através do V Simpósio do Clero, que terminou no dia 8 de Setembro de 2006, tendo funcionado como um espaço de reflexão e de estudo do universo religioso que, na sua essência, (re)liga o sagrado e o humano.