Por que dão os portugueses?
Todos nós, de um modo recorrente, somos solicitados para dar. A face mais visível desse pedido assume a forma de peditórios para instituições com fins não lucrativos ou tão simplesmente a mão estendida do nosso próximo, numa rua das nossas localidades. Mas também outros nos pedem o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa presença efectiva.
A Economia da Dádiva é um ramo recente da Ciência Económica que se debruça sobre estes assuntos. Perceber melhor porque damos valores que nos foram custosos a adquirir, porque escolhemos montantes variados para receptores diferentes e porque completamos a nossa dádiva material com outros recursos são algumas das questões concretas tratadas, em particular, por esta disciplina.
Assinei, neste ano de 2007, o artigo Portuguese Public Collections and the economic cycle: a seminal study, publicado na prestigiada revista científica “International Journal of Social Economics” e discutido na conferência deste ano da European Association for Evolutionary Political Economy. Esse artigo reflecte uma investigação desenvolvida no sentido de auscultar factores que possam explicar as diferenças de valores doados para as campanhas de peditórios públicos a cargo da Liga Nacional contra o Cancro, observados nos concelhos do Norte de Portugal. Este trabalho revela assim um esforço pioneiro no nosso país, preenchendo uma lacuna substancial numa questão tão importante como é a de se saber por que dão os portugueses.
Foram testados diversos factores potenciais. No entanto, factores como o rendimento per capita, a taxa de fecundidade, a percentagem de população feminina ou a dimensão populacional não revelaram a importância que encontraram noutros estudos efectuados em países alternativos.
Ao invés, foram validados estatisticamente a importância do ciclo económico regional (quando a economia local cresce, crescem também os valores angariados), a importância da presença na vida activa dos doadores (os municípios onde a percentagem de população activa é maior revelam também maiores valores doados) e a relevância de factores institucionais, como uma maior propensão à nupcialidade, que estimula um maior crescimento dos valores dados para estes peditórios.
Provou-se assim que a dádiva encontra-se fornecida, principalmente, pela parte temporária do rendimento (e não pela componente permanente) validando a percepção de que “se dá quando se pode” assim como para o espectro sócio-económico do norte do país o efeito compensatório se produz com simetria ao observado em áreas mais ricas do globo: no norte de Portugal e no período analisado (entre 2002 a 2005), a generosidade é mais acentuada durante a vida activa, diminuindo após a reforma. A explicação mais robusta tende a apontar os valores discretos das pensões assim como sentimentos de insegurança enquanto motivos desta alteração comportamental na transição entre a vida activa e o período de reforma. No entanto, como outros estudos demonstraram, por vezes, a diminuição dos valores quantificáveis monetariamente é compensada pelo acréscimo de dádivas de tempo ou de bens, como acontece com os avós que preferem transformar os presentes dados aos netos em presenças junto destes.