Aug 22 2007

Torga e os outros ET’s

Paulo Reis Mourão

(Docente do Departamento de Economia da Universidade do Minho)

 

1- Torga não nasceu há 100 anos.

 

2- Quem nasceu há 100 anos, em São Martinho de Anta, foi Adolfo Correia da Rocha, um ET.

 

3- Quando passeamos em Lisboa pelos cafés literários, sabemos o que é um ET. Um ET é um “Escritor Transmontano”.

 

4- As comemorações em torno do centenário do nascimento de Adolfo Correia da Rocha, mais tarde autobaptizado como Miguel Torga, reflectem a realidade do país e da região que foi o seu berço.

 

5- A ausência de ministros e de secretários de Estado no seu centenário escandalizou muitos. Sem razão aparente. Muitos ministros e Secretários de Estado têm sido bem recebidos na região pelo motivo agora apontado, desde há um ano.

 

6- Nós, irmãos de Torga, desejamo-lo universal. Mas Torga é o escritor local. O nosso marketing queria Torga Nobel da Literatura. A Torga basta o número de línguas em que está traduzido e o número de bibliotecas em que está presente. Também queríamos maior poder de compra para os transmontanos. Mas os transmontanos transcendem-se na emigração e nos morteiros das festas. Queremos uma região progredida. Mas à região bastam as suas gentes lapíteas, turguestanas, galo-suevas e arianas. Assim como à região bastam os seus ET’s.

 

7- Torga sempre o soube. E por isso satisfazia-se na incomensurável medida dos montes e dos homens da sua terra. Esses merecem-no. Os outros, os ausentes, merecemo-los nós.

 

8 – Quantas horas de documentários biográficos ou cénicos passaram nos canais televisivos sobre Torga no último ano? Quantas páginas associadas nos jornais de grande tiragem? Quantas exposições nos grandes espaços nacionais? Muito poucas para quem, nós, seus irmãos, queríamos como escritor universal. Elucidativo de quanto vale Torga para o imaginário lusitano, para a economia do mercado livreiro, para as dissertações académicas, para símbolo de uma região cada vez mais esquecida.

 

9 – E, no entanto, neste ano, Torga deu para tudo. Continuou a ser citado em dissertações de Mestrado, Teses de Doutoramento e Ensaios Literários. Foi retratado e retrataram-no em exposições que surgiram, espontâneas, por todo o lado. Seus poemas foram lidos e trelidos em aulas de Secundário amarguradas e os saudosistas releram o seu Diário. Peças foram encenadas e recortadas em todo o lado. Bateram-se palmas, palminhas e palmocas. No fim, caiu o pano. Ficou o Reino Maravilhoso abandonado como os “Novos Contos da Montanha” fechados e arrumados na prateleira empoeirada. De vez em quando, lá se revisitará Torga como de vez em quando alguém quererá fazer um cruzeiro Régua-Pocinho-Régua. Para, no fim de dia, com fastio, perguntar se ainda demora muito a chegar a Lisboa.


Aug 6 2007

Os carrosséis do interior

1 – Em 2001, escrevi “Sabes o som de uma igreja abandonada pelos homens, ou um paraíso tropical decalcado pelo troar das máquinas, ou o cântico dos mosteiros medievais e da fuga ao mundo, ou um solar setecentista com promessa de desabar, ou uma escultura clássica mutilada, ou o piar das gaivotas no lodo, ou a surpresa de uma necrópole invadida por esgotos?” Este excerto foi retirado do livro O Senhor de Fez e Outros (pp. 138), que entre tantas concretizações, me possibilitou recentemente a grata informação oficial de que este título, editado pela Ambar, faz parte da selectiva Biblioteca do Congresso Norte-Americano, na categoria de Literatura Moderna Lusófona.

 

2- Neste excerto sugeria que espaços abandonados comportam em si, independentemente, do observador, uma sensação de compaixão. Talvez pudor pelo toque perceptível de vidas alheias, de trabalhos alheios, de famílias alheias, de crenças alheias, de mundos alheios.

 

3 – Marca inexorável dos tempos é o abandono, por esse interior fora, de “parques infantis”, deixados às ervas crescentes que ninguém corta, à ferrugem das diversões postas em tempos, ao desbotamento das cores da madeira de cavalos e cadeiras, ao perigo de carrosséis desalinhados, sujos pelas poeiras assentes por chuvas que ninguém limpa e por sóis tórridos sem nenhuma sombra.

 

4 – Se me pedissem uma imagem da desertificação do nosso interior, sugeriria como mais veemente essa imagem dolorosa – a de tantos carrosséis e projectos de carrosséis abandonados nos largos de muitas aldeias e vilas. Símbolo de ausência de atenção dos decisores públicos de locais sem crianças. Símbolo da dúvida de arrancar aquelas armações cada vez mais enferrujadas: “…Será que ainda virá alguma criança que queira brincar por aqui?…” Símbolo da falta de respostas para a questão óbvia: “…O que fazer daqui? Mais uns bancos para os nossos idosos?”

 

5 - Seria bom que estes parques fossem, efectivamente, limpos e que assegurassem as condições mínimas de segurança e de conforto para as eventuais crianças que por lá passam! Ainda que escasseiem as crianças, ainda que cada vez menos as remanescentes encontrem graça nestes artefactos, não deixa de ser deplorável a falta de atenção que se manifesta no seu abandono pelas entidades competentes. Assim como deplorável é a falta de espaços sem níveis de segurança para que as famílias, no seu todo, possam sentir a natureza.

 

6 – Quem conhece, como eu conheço, os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, não pode deixar de ficar surpreendido pela falta de réplica em quase todo o país dos ideais das gerações de arquitectos que neles têm trabalhado: os jardins devem ser vividos pelas populações, tocados, sentidos. E não meros expositores de canteiros cada vez mais artificiais, desligados da flora e da botânica local, onde se mistura a repressão “Não pises a relva!” com o receio de sermos surpreendidos por objectos indesejados.


Aug 6 2007

Sobre a Cruz

Paulo Reis Mourão

(Docente do Departamento de Economia da Universidade do Minho)

 

 

1- A FENPROF, mal, veio mais uma vez insurgir-se contra a presença/exposição de crucifixos nos estabelecimentos de ensino em Portugal.

 

2 - A Constituição da República Portuguesa alega no Artigo 43º ponto 3 que ‘O ensino público não será confessional’.Sou defensor da separação do Estado e dos interesses religiosos. A promiscuidade entre estas duas instituições tem trazido imensas confusões à história da humanidade. Em termos locais, veja-se o que se passa entre a Segurança Social e/ou Autarquias e diversos centros paroquiais ou Irmandades (como as Misericórdias) com dúvidas sobre financiamentos, direcções ou essências de funcionamento.

 

3 – O ensino público não será confessional. Mas a própria ausência é um símbolo em si. A própria abstenção é expressão democrática. O próprio silêncio é parte de uma partitura. O “black out” é manifestação de desagrado. A não-comunicação é mensagem por si só. Logo, impõe-se uma questão – o ateísmo ou o agnosticismo não são em si uma confissão?

 

4 – O respeito pela pluralidade de confissões exige, no ensino público, não a destruição de símbolos religiosos mas a equidade no tratamento de todos os símbolos religiosos. Logo, no lugar da destruição de crucifixos, impõe-se a exposição nas escolas de elementos conotados com o respeito pela crença das crianças e jovens que professam religiões diferentes do cristianismo, que, fruto da imigração, chegam com cada vez maior expressão ao nosso país. Paulo de Tarso, em Atenas, não começou a partir, como um iconoclasta, os deuses atenienses, mas antes interpelou-os e interpelou os seus devotos. Será a nossa sociedade iconoclasta? Ou o problema residirá no vazio da sua própria essência? Ou os nossos professores (“aqueles que professam”) têm medo de discutir Jesus Cristo, Maomé, Buda, Moisés? O tarouquense Leite de Vasconcelos, que tanto se debruçou sobre as religiões da Lusitânia, pode-lhes ainda ensinar mais algumas coisas.

 

5 – O respeito pela pluralidade de confissões exige, não a privatização de tantas expressões, sobretudo de índole cristã, nas nossas praças públicas, como cruzeiros, chafarizes, ou alminhas, mas a equidade na preservação dos legados proto-romanos, islâmicos ou israelitas, só para citar os de maior frequência no nosso país.

 

6 – Porquê então o Governo preserva a denominação, na sede parlamentar, de Palácio de São Bento? Porquê então o Governo concede folga nalguns feriados religiosos católicos a crentes e não-crentes? Porquê a República preserva elementos conotados com tradições religiosas cristãs (como as chagas de Cristo repartidas pelos cinco escudos em forma de cruz) na bandeira nacional?

 

7 – Por último, há-de cada um ter um nome privado de inspiração cristã (como Maria, José, António, Teresa, etc, etc) e em público, para não desrespeitar a laicidade, outro?

 

8 – A Cruz, enquanto símbolo de angústia para uns, de entrega para outros, de suplício para os primeiros, de redenção para os últimos, de dor para aqueles, de Amor para estes, continua a ser sinal de escândalo. Pior do que a Cruz, é o silêncio em redor. Esse sim, marca de vacuidade de valores, de anomia, de esquecimento.

 

9 – O nosso medo verdadeiro será o medo da Cruz? Ou teremos medo do Crucificado? Ou, pior, teremos medo da Cruz Vazia? Ou do Ressuscitado?

 


Aug 6 2007

Onde somos melhores?

Paulo Reis Mourão

(Docente do Departamento de Economia da Universidade do Minho)

 

 

1- Conta-se que “a necessidade aguça o engenho”. Geralmente, necessidades muito fortes levam-nos a procurar respostas adequadas.

 

2 – Vem esta citação a propósito de uma intervenção que proferi no dia 27 (de Abril deste ano), no Ateneu Comercial do Porto, no encontro “Captação de Investimento Público”, organizado pelo Ateneu e pela Ordem dos Economistas. Os outros palestrantes eram o Engenheiro Rui Monteiro (CCRDN) e o Dr. Sampaio Pimentel (Câmara Municipal do Porto).

 

3 – Na sequência do trabalho “As diferenças de competitividade entre o litoral e o interior de Portugal. O caso das capitais de distrito”, que co-assinei com Júlio Barbosa, também da Universidade do Minho, amplamente difundido na Comunicação Social, e que já comentei, aqui, em Vila Real, na Agenda Fórum XXI, está sugerido que um espaço competitivo não é por premissa rico, mais desenvolvido ou litoralizado, mas é antes um espaço com potencial de crescimento económico, devendo este crescimento ser endógeno (alimentado pelas pessoas e pelos outros recursos do espaço) e ser sustentado (no sentido de contínuo).

 

4 – Relativamente à cidade de Vila Real, identificámos como “pontos fortes” a competitividade empresarial, isto é, os agentes investidores que invistam bem nesta dimensão terão maiores probabilidade de ganhos do que investindo em dimensões alternativas. Outros “pontos fortes” da nossa cidade duriense estão localizados na capacidade média do alojamento em estabelecimentos hoteleiros, no (elevado) número de licenças para habitação e no (razoável) número de pessoas por alojamento, características que apontam, essencialmente, para a qualidade de vida dos residentes. Estas dimensões são dimensões onde investidores racionais maximizarão os seus retornos – são as chamadas “rectas” de crescimentos.

 

5 – No entanto, identificámos alguns “pontos fracos” relativamente à cidade de Vila Real. Estes “pontos fracos” são dimensões que devem ser corrigidas e que reflectem “pontos de congestionamento” dos recursos. Estas dimensões estão relacionadas com a (reduzida) dimensão média das sociedades comerciais, o (reduzido) número de edifícios exclusivamente residenciais e o (também reduzido) número médio de divisões por alojamento, o que projecta desafios no sentido de concepções diferentes da construção civil empreendida, indo de encontro às necessidades modernas da população, assim como um sério desafio à reconsideração dos centros urbanos, progressivamente terciarizados, despovoados e donutizados (de donuts, com um espaço vazio ao centro e com concentração populacional na periferia).

 

6 – Se a solução para a cidade do Porto passa por compreender o sentido de Portus Calle (aposta na internacionalização dos recursos), a solução para Vila Real passa por compreender o nome de Real Villa , isto é, pela assunção de uma capitalidade de interior efectiva, com capacidade de resposta cabal relativamente às necessidades da população.

 

7 – Um alerta: tenham muita atenção sobre a aplicação do documento estratégico do “Norte”: “Norte 2015 – Competitividade e Desenvolvimento, uma Visão Estratégica”.


Aug 6 2007

De quem é a culpa? Dos sócios

Paulo Reis Mourão

 

Publiquei, em 2005, o artigo “A importância do desenvolvimento regional na localização de equipas de futebol profissionais. O caso português 1970-1999” na revista científica Revista Portuguesa de Estudos Regionais. O trabalho procurou testar a hipótese “O nível de desenvolvimento económico da região condiciona a presença das colectividades de futebol profissional, aí sedeadas, no escalão principal da competição”. Convido dirigentes e sócios dos clubes desportivos da nossa região a lerem-no em profundidade e a meditarem sobre as conclusões expressas.

 

Em função da ambição diferenciada de cada colectividade desportiva, assim também a estrutura de custos é variável, o que se encontra intrinsecamente relacionado com a composição dos seus proveitos. No entanto, o nível de utilidade auferido por uma equipa de futebol profissional (entendida no seu conceito mais lato, com dirigentes, jogadores, técnicos e outros apoiantes) está dependente de uma gama complexa de factores. Um desses factores respeita ao contexto espacial envolvente.

 

A “área de mercado” em redor de uma colectividade desportiva não está só condicionada pela sua dimensão populacional. Dimensões adicionais são as conectadas com o rendimento dessa população, o seu nível de instrução e a possibilidade de ascender a consumos de índole cultural e desportiva na medida em que necessidades sociais primárias (como o conforto do parque habitacional, por exemplo) estejam satisfeitas.

 

O conjunto de autores consultados conjuga a relevância das várias dimensões associadas ao processo de desenvolvimento económico (crescimento da produção, aumento do rendimento, nível de urbanização, ou, por exemplo, patamar de escolarização) com a presença de consumos mais significativos dos bens e serviços desportivos. Assim, colocou-se a hipótese nuclear deste trabalho de que o nível de desenvolvimento pode ser um factor considerável na explicação de que os clubes de futebol mais ambiciosos optem por localizar a sua sede e, inerentemente o volume maior das suas actividades, em determinados espaços.

 

Para ser testada a hipótese, recorreu-se a um modelo que na sua sugestão primária é derivado da localização industrial. Este modelo desenvolve o pressuposto de que o agente decisor (a colectividade desportiva) procura maximizar a sua utilidade atendendo a determinadas condições espaciais.

 

Focando a realidade da principal liga do futebol profissional, em Portugal, a variável dependente assumiu a natureza de uma variável binária, que tomava a unidade sempre que determinado município, num dado ano (entre 1970 e 1999), tinha, pelo menos, uma equipa aí sedeada a militar nessa competição. Para sugerir as diversas dimensões do desenvolvimento económico, recorreu-se aos dados provenientes de três índices: o Índice de Conforto, o Índice de Esperança de Vida e o Índice do Rendimento Ajustado. A vantagem de se trabalhar com índices resulta de estes agregarem a informação, evitando, por um lado, a perda de graus de liberdade resultante de variáveis redundantes e, por outro lado, oferecer uma perspectiva de conjunto, indispensável na auscultação de qualquer processo de desenvolvimento económico. Adicionalmente, como variável de controlo sugerida em diversos estudos, foi colocado o logaritmo da população residente.

 

Através de modelos logit, e com a devida correcção de dependência temporal, pela aplicação de métodos associados a Binary Time-Series Cross-Section (BTSCS), concluiu-se que as dimensões do rendimento médio e do conforto das populações, assim como a grandeza populacional, são os factores mais significativos para o aumento da probabilidade de que determinado concelho acolha colectividades de futebol militantes na principal competição portuguesa. Estes resultados confirmam assim a hipótese central do trabalho, estando de acordo com as conclusões de trabalhos alternativos como os de Dobson e Goddard (1996) e Downward e Dawson (1999).

 

Este trabalho que na sua versão portuguesa já foi discutido em duas ocasiões na Rádio Voz do Marão a convite dos estimados jornalistas Paulo Vaz e José António Cardoso vai ser publicado em breve na prestigiada revista European Journal of Economics, Finance and Administrative Sciences. Lança sobre o nosso futebol regional algumas conclusões importantes:

 

1º) em regiões com um padrão de rendimentos inferior ao rendimento médio do país, só a presença de uma massa associativa dedicada permitirá o alcance de objectivos mais ambiciosos em clubes profissionais de futebol (veja-se o exemplo dos adeptos vimaranenses ou sadinos, respectivamente, nas regiões do Ave ou da Península de Setúbal, áreas com elevadas carências de emprego).

2º) se essa massa associativa continuar a preferir o passeio nos centros comerciais aos Domingos à tarde, depauperando as assistências dos “seus” clubes, jamais deve atirar pedras pelos maus resultados desportivos a direcções isoladas, equipas técnicas acriticadas ou a autarquias sobre-apeladas em termos de múltiplos financiamentos.

3º) Em cenário de divórcio entre os clubes e os seus associados (recordo que um clube só funciona por vontade de todos os sócios e que as direcções são mandatadas pelos sócios e não dependentes de firmas ou de autarquias que têm funções diversas no panorama sócio-económico do país) os clubes têm a obrigação de escolher uma das duas vias seguintes (que já se colocaram ao nível de países como a Itália, a França ou a Alemanha):

i)                    a aposta na formação, muito mais barata e com um nível de assistências próximo das equipas seniores, deixando, no espectro regional, que só uma ou duas equipas sejam profissionais;

ii)                   o progressivo encaminhamento para o amadorismo da modalidade, como um regresso às origens da mesma.

 

Numa altura crítica, em que as principais equipas da região assumem o risco de terminarem os campeonatos nacionais em lugares de despromoção esta reflexão exige um espaço alargado, envolvendo a Associação Distrital de Futebol, os Clubes, as Autarquias e as próprias populações, aparentemente, cada vez mais alheadas das suas juventudes praticantes e concentradas nos jogos da SportTv.

 

 

 


Aug 6 2007

Eu Voto Não mas…

Existem muitas questões a serem colocadas, reportando-me só a três neste texto.

 

A primeira respeita ao momento do referendo sobre o aborto – coincidência da primeira legislatura do governo de José Sócrates com o primeiro mandato de Cavaco Silva. Os ciclos presidenciais, em Portugal, são de dois mandatos, pelo que Cavaco Silva, re-candidatando-se no próximo momento eleitoral, não terá adversários da direita nem oriundos do Partido Socialista, além de candidaturas independentes como a de Manuel Alegre, e dos habituais candidatos indigitados pelas forças do Partido Comunista Português e das restantes afirmações à esquerda da CDU. Assim, o momento escolhido dificilmente, em termos políticos, seria recusado por Cavaco Silva, a menos que este pretendesse afirmar a sua Presidência semi-executiva como o fará no segundo mandato ou que arriscasse perder a sua popularidade no eleitorado do centro-esquerda. Recordo-me, agora, da atitude do Rei Baudoin I, da Bélgica, em 1990, que recusou durante dois dias o ceptro de monarca para não legalizar uma lei que liberalizava o aborto em termos mais restritivos que o articulado a referendar neste nosso país no próximo dia 11 de Fevereiro. Políticos assim, como o monarca belga, são precisos – que não sacrificam os seus Valores aos valores quantitativos das sondagens.

 

A segunda questão toca todos os defensores do Não, em particular, fracturados em miríades de movimentos, alguns desconcertados que correm como a lebre que adormeceu na corrida com a tartaruga – tarde e a más horas. Enquanto os defensores do Sim, partidos políticos e movimentos de cidadãos, delinearam estratégias em sossego, paulatinamente, e utilizando tácticas fabianas, durante os últimos 10 anos, catapultando a sua opinião nos meios de comunicação social, Nós, defensores do Não, limitámo-nos a esconder os olhos da realidade que continuava, a apontar farisaicamente e muitas vezes a moral e os costumes da juventude desregrados e a julgar que tudo era falha dos outros. A Vida ficava posta de lado, abortada, despejada, abandonada à nascença, entregue a familiares com as condições que, mais tarde, vieram a público nos escândalos de tantas crianças maltratadas. A solução jamais será o aborto – mas não nos esqueçamos das palavras bíblicas: somos responsáveis pela graça ou pela desgraça dos nossos irmãos. Será, no entanto, desejável que todos estes movimentos defensores do Não, continuem uma acção esclarecedora, por um lado, e activa, por outro, junto da população, para lá do dia 11 de Fevereiro – isto é, que sirvam de espaço de acolhimento de dúvidas e de soluções de tantas famílias ou jovens e, por outro, que funcionem como associações activistas na defesa pelas gerações futuras, apoiando estruturalmente (e não por esmolas) os grupos de risco. Ao contrário dos grupos do Sim, que tendencialmente vão desaparecer após o dia 11 de Fevereiro, que sejamos nós, os do Não, a ganhar todas as batalhas dos dias 12, 13, 14 que se seguem.

 

A terceira questão, de cariz académico, vem de encontro a muitas palavras que já troquei com sacerdotes católicos amigos: o próximo referendo é, apesar de tudo, e queiram ou não, um grande inquérito ao “nível” de vivência católica em Portugal e à capacidade da Igreja Católica em mobilizar os seus fiéis de encontro ao desejo da hierarquia, sendo a Igreja Católica a confissão religiosa assumidamente envolvida com maior peso sociológico. Se Bismark referia que se o seu partido ganhasse em cada aldeia ganharia na Prússia inteira, também se todos os 97% de católicos portugueses votassem de encontro ao desejo assumido pela hierarquia católica, o Não venceria. Portanto, resta saber quem destes 97% é verdadeiramente católico eleitor praticante.

 

Pessoalmente, votarei sempre Não a questões desta natureza. As razões, de um modo exaustivo, estão expostas no último Boletim Paroquial de São Pedro. Porque, em síntese, a consciência da Vida Humana é a grande diferença que temos para com os outros seres viventes, animais e plantas. Se a pinha liberta os pinhões quando incendiada, se a mãe-galinha protege a prole se ameaçada, será o Homem o fim do homem?

 

Paulo Reis Mourão

(Docente do Departamento de Economia da Universidade do Minho


Aug 6 2007

A Porca de Murça

1 – Todos sabem: a Porca de Murça é mãe dos de fora e madrasta dos da terra.

2- Numa tertúlia literária, no Porto, tive leitores do meu livro “Os cachos e as mãos” que acharam muita piada a esta revelação. E logo alguns concluíram: elevem a Porca de Murça a patrono das Câmaras Municipais! Porquê? Porque, na generalidade dos municípios (disseram-me), os ilustres “de fora” são sempre filhos e os “esforçados” da terra são sempre enteados. Vêm arquitectos, engenheiros, doutores, juízes, médicos (ou assim se apresentam) de outros lados e recebem pompas e louvores. Almoçam, jantam e ceiam. Os locais batem palmas, entregam medalhas, lançam foguetes e na melhor das hipóteses contentam-se com as canas. A isto chama-se “arte de bem receber”.

3- Retorqui que talvez os “de fora” tenham a competência que falta aos “da terra”. Responderam-me que podem ter mas que lhes falta sempre o “amor ao torrão natal”. São paraquedistas: aterram e põem-se a andar. São mercenários: move-lhes o interesse mesquinho. São ratos: quando o barco afunda são os primeiros a fugir.

4 – Sorri. Porque, na realidade, o mísero “amor ao torrão natal”, o “espírito de sacrifício”, o patriotismo, a paixão telúrica, a força regionalista ou a “prisão às raízes”, são os únicos factores, dificilmente quantificáveis, que podem levar ainda alguém a preferir manter-se na sua aldeia a emigrar, a preferir ficar junto dos seus a começar vida nova noutro lado, a contentar-se com o sol igual a descobrir noites diferentes.

5 – Comentou-se, de seguida, que os ambientes que se geram nas estruturas autárquicas tendem a reproduzir o servilismo medíocre (ficam a trabalhar nas câmaras os conhecidos, os familiares, os amigos, os correligionários do partido e os melhores vizinhos) e a penalizar a entrada de colaboradores mais jovens, com formação mais elevada, com ideias inovadoras e visões modernas sobre os concelhos. Começam a surgir, amiúde, situações de funcionários camarários “arrependidos”, pois percebem que eles estão dentro mas os filhos, formados, ficam de fora ou têm de migrar.

6- Notei, então, que nem todas as 308 autarquias detinham tal caracterização. Basta olhar para os Quadros de Pessoal, anualmente editados pelo Ministério do Trabalho e da Segurança Social, e verificar que existem autarquias com uma proporção mais alta de colaboradores mais novos e mais qualificados. E onde se encontram essas autarquias? Em Lisboa? No Porto? Não. No interior? Aí de certeza que não. Mas nas periferias de Lisboa e do Porto, nos concelhos em franco crescimento, desenvolvidos, que acabam por beneficiar do capital humano de naturais de outros concelhos, rejeitados pela terra-mãe, mas acolhidos por uma boa madrasta.

7- Durante muito tempo, as Câmaras Municipais têm também sido agentes seguradores dos desempregados das regiões do interior, como demonstrei no artigo Elasticities of Regional and Local Administrations Expenditures, publicado na revista científica Regional and Sectorial Economic Studies. Uma fábrica fechou – e é ver as Câmaras Municipais a recrutarem trabalhadores para as suas fileiras. Com esta atitude, as Câmaras aumentam o seu poder e a sua influência, facilmente aproveitados pelos partidos que dominam os executivos. Mas ao contrário do que parece, as câmaras não evitam a saída do concelho dos trabalhadores assim recrutados e das suas famílias. Porque se eles não saíram ontem à procura de trabalho noutros locais, quando a fábrica fechou, saem necessariamente amanhã, quando o Estado Central exigir a redução do número de efectivos das câmaras devido às necessidades das Finanças Públicas do país. E onde serão estas reduções mais violentas, mais significativas e mais dramáticas? Nos municípios do interior, onde o elevado número de funcionários públicos é sinónimo de sub-desenvolvimento (porque as estruturas sustentáveis de iniciativa privada ou cooperativa não têm espaço de afirmação). Ganham, por último, os partidos e perdem, por último, os próprios concelhos. É um dilema da democracia local!

8- Depois, não nos podemos admirar de clubes que descem de divisão, da agricultura abandonada, de estruturas culturais com dificuldade de manutenção, da saída dos jovens qualificados, do marasmo dos concelhos, da perda demográfica, das escolas que fecham, dos hospitais que se fundem, da mediocridade intelectual, da banalidade das conversas, do pacovismo, da boçalidade, do pretensiosismo de uns, da ignorância de outros.

9 – Do alto da sua idade, a Porca de Murça é que sabe. Afinal, nada disto é novo para ela. Afinal, com tantos filhos e enteados, só mesmo sendo de pedra!

PS – Não se pense que este quadro só se passa em Murça…