Paulo Reis Mourão
Publiquei, em 2005, o artigo “A importância do desenvolvimento regional na localização de equipas de futebol profissionais. O caso português 1970-1999” na revista científica Revista Portuguesa de Estudos Regionais. O trabalho procurou testar a hipótese “O nível de desenvolvimento económico da região condiciona a presença das colectividades de futebol profissional, aí sedeadas, no escalão principal da competição”. Convido dirigentes e sócios dos clubes desportivos da nossa região a lerem-no em profundidade e a meditarem sobre as conclusões expressas.
Em função da ambição diferenciada de cada colectividade desportiva, assim também a estrutura de custos é variável, o que se encontra intrinsecamente relacionado com a composição dos seus proveitos. No entanto, o nível de utilidade auferido por uma equipa de futebol profissional (entendida no seu conceito mais lato, com dirigentes, jogadores, técnicos e outros apoiantes) está dependente de uma gama complexa de factores. Um desses factores respeita ao contexto espacial envolvente.
A “área de mercado” em redor de uma colectividade desportiva não está só condicionada pela sua dimensão populacional. Dimensões adicionais são as conectadas com o rendimento dessa população, o seu nível de instrução e a possibilidade de ascender a consumos de índole cultural e desportiva na medida em que necessidades sociais primárias (como o conforto do parque habitacional, por exemplo) estejam satisfeitas.
O conjunto de autores consultados conjuga a relevância das várias dimensões associadas ao processo de desenvolvimento económico (crescimento da produção, aumento do rendimento, nível de urbanização, ou, por exemplo, patamar de escolarização) com a presença de consumos mais significativos dos bens e serviços desportivos. Assim, colocou-se a hipótese nuclear deste trabalho de que o nível de desenvolvimento pode ser um factor considerável na explicação de que os clubes de futebol mais ambiciosos optem por localizar a sua sede e, inerentemente o volume maior das suas actividades, em determinados espaços.
Para ser testada a hipótese, recorreu-se a um modelo que na sua sugestão primária é derivado da localização industrial. Este modelo desenvolve o pressuposto de que o agente decisor (a colectividade desportiva) procura maximizar a sua utilidade atendendo a determinadas condições espaciais.
Focando a realidade da principal liga do futebol profissional, em Portugal, a variável dependente assumiu a natureza de uma variável binária, que tomava a unidade sempre que determinado município, num dado ano (entre 1970 e 1999), tinha, pelo menos, uma equipa aí sedeada a militar nessa competição. Para sugerir as diversas dimensões do desenvolvimento económico, recorreu-se aos dados provenientes de três índices: o Índice de Conforto, o Índice de Esperança de Vida e o Índice do Rendimento Ajustado. A vantagem de se trabalhar com índices resulta de estes agregarem a informação, evitando, por um lado, a perda de graus de liberdade resultante de variáveis redundantes e, por outro lado, oferecer uma perspectiva de conjunto, indispensável na auscultação de qualquer processo de desenvolvimento económico. Adicionalmente, como variável de controlo sugerida em diversos estudos, foi colocado o logaritmo da população residente.
Através de modelos logit, e com a devida correcção de dependência temporal, pela aplicação de métodos associados a Binary Time-Series Cross-Section (BTSCS), concluiu-se que as dimensões do rendimento médio e do conforto das populações, assim como a grandeza populacional, são os factores mais significativos para o aumento da probabilidade de que determinado concelho acolha colectividades de futebol militantes na principal competição portuguesa. Estes resultados confirmam assim a hipótese central do trabalho, estando de acordo com as conclusões de trabalhos alternativos como os de Dobson e Goddard (1996) e Downward e Dawson (1999).
Este trabalho que na sua versão portuguesa já foi discutido em duas ocasiões na Rádio Voz do Marão a convite dos estimados jornalistas Paulo Vaz e José António Cardoso vai ser publicado em breve na prestigiada revista European Journal of Economics, Finance and Administrative Sciences. Lança sobre o nosso futebol regional algumas conclusões importantes:
1º) em regiões com um padrão de rendimentos inferior ao rendimento médio do país, só a presença de uma massa associativa dedicada permitirá o alcance de objectivos mais ambiciosos em clubes profissionais de futebol (veja-se o exemplo dos adeptos vimaranenses ou sadinos, respectivamente, nas regiões do Ave ou da Península de Setúbal, áreas com elevadas carências de emprego).
2º) se essa massa associativa continuar a preferir o passeio nos centros comerciais aos Domingos à tarde, depauperando as assistências dos “seus” clubes, jamais deve atirar pedras pelos maus resultados desportivos a direcções isoladas, equipas técnicas acriticadas ou a autarquias sobre-apeladas em termos de múltiplos financiamentos.
3º) Em cenário de divórcio entre os clubes e os seus associados (recordo que um clube só funciona por vontade de todos os sócios e que as direcções são mandatadas pelos sócios e não dependentes de firmas ou de autarquias que têm funções diversas no panorama sócio-económico do país) os clubes têm a obrigação de escolher uma das duas vias seguintes (que já se colocaram ao nível de países como a Itália, a França ou a Alemanha):
i) a aposta na formação, muito mais barata e com um nível de assistências próximo das equipas seniores, deixando, no espectro regional, que só uma ou duas equipas sejam profissionais;
ii) o progressivo encaminhamento para o amadorismo da modalidade, como um regresso às origens da mesma.
Numa altura crítica, em que as principais equipas da região assumem o risco de terminarem os campeonatos nacionais em lugares de despromoção esta reflexão exige um espaço alargado, envolvendo a Associação Distrital de Futebol, os Clubes, as Autarquias e as próprias populações, aparentemente, cada vez mais alheadas das suas juventudes praticantes e concentradas nos jogos da SportTv.