Tempo de Janeiras
1- É notório que a celebração da quadra natalícia evolui.
2- Por exemplo, no número de cartões de Boas Festas enviados ou recebidos por via postal ou então nas visitas dos cantadores de janeiras.
3- No primeiro caso, excepto a correspondência oriunda de remetentes institucionais, a maioria das expressões de Boas Festas acontece através do correio electrónico, desde mensagens pesadas, excelentes apresentações multimédia e com música a condizer, até expressões tão simples como “Boas Festas” que chegam, num número não negligenciável, via sms.
4- No segundo caso, as janeiras sofrem por uma redução da oferta, na medida em que a procura é inelástica (as casas não “votam com os pés”, como no modelo de Tiebout). Os cantadores de “reis” e de “janeiras” envelheceram, cansaram-se de verem as luzes de dentro das casas serem desligadas na cara e de meia dúzia de cêntimos a repartir pela trupe. O subsídio de Natal esvaziou o espírito redistributivo que acompanhou durante anos as “janeiras” no nosso interior. Qual o ganho em sair de casa, levar com a geada nos ombros e voltar com meia dúzia de euros, depois de correr meia cidade ou meia vila, e de ouvir críticas dignas do júri dos “Ídolos”?
5- Neste caso, ainda que a Boa Nova continue a merecer ser difundida, os mensageiros cansaram-se de a cantar. Talvez prefiram enviá-la por YouTube ou colocá-la no Twitter. Mas aí perde-se o bafo, as caras rosadas e o odor das cozinhas. E sobretudo o olhar encantado das crianças, o olhar aborrecido do pai e o olhar condescendente da mãe.
6 – Em contrapartida, aumentaram as pseudo-janeiras – cantares declamados ou escritos que chegam, às centenas, por estes dias, aos gabinetes dos autarcas e dos ministros, pedindo um subsidiozinho para a colectividade ou uma ajuda para um evento. A Boa Nova não é o nascimento do Menino, mas antes o Progresso da terra. Não se pede a linguiça mas uma ajuda de custo; já não se contentam com o “vinho fino”, pede-se a merenda para todo o ano.
7 – Não há dúvida em que estamos a evoluir!