O deus pib
Fui convidado para ser um dos Oradores no Seminário “Os nós da Economia Social” que decorreu em Vila do Conde, no passado dia 18 de Janeiro.
Uma das ideias que partilhei (e que causou viva emoção na plateia) referia-se ao desnudar de um mito que as nossas sociedades assumem. Esse mito já tinha sido identificado por Jacques Godbout, em “O espírito da dádiva” e refere o seguinte: Na realidade, todos nós, mais ou menos conscientemente, mesmo os que se assumem crentes de uma ou numa religião, prestam o seu maior tributo, ao longo da vida, não a Deus, mas a um deus chamado Pib, ou melhor, PIB, isto é, Produto Interno Bruto.
Muitas das pessoas, comovidas, disseram-me depois que na realidade se tinham revisto nesse comentário – porque passamos a vida a procurar trabalhar, e quando trabalhamos, a trabalhar para ganhar mais, e sobretudo ganhar mais do que os outros com que nos comparamos, e depois ensinamos isso aos nossos amigos e filhos e lastimamo-nos quando o nosso tributo ou dízimo é menor (se estamos desempregados ou se temos cortes salariais) e ficamos tristes se esse deus fica mais pequenino e por aí adiante…
Na realidade, diversos trabalhos académicos, bem recentes, vêm provando que o PIB, como indicador das competências dos agentes de um espaço ou então como aferidor do nível de vida desses agentes é um dos piores indicadores.
Os economistas sabem-no mas nem sempre o confessam: o PIB pode diminuir e os trabalhadores podem ter aumentado a sua produção, logo o seu esforço; o PIB pode aumentar, dispensando trabalhadores e inclusive bons trabalhadores; o PIB pode aumentar e gerar menor Rendimento Nacional; o PIB pode diminuir e todos viverem melhor; o PIB pode aumentar e todos viverem pior, entre outras verdades que já há mais de cem anos são conhecidas.
Assim, podemos perguntar: porquê este absolutismo de um deus que nos escraviza em ideias estranhas que não controlamos? Há três grandes razões para isso. A primeira razão prende-se com a sua difusão universal. Hoje, com décadas de ensino da Economia na generalidade das universidades de todo o mundo, há metodologias convergentes no cálculo do PIB (coisa que não acontecia há cem anos, onde o deus pib era medido por vezes pela quantidade de moeda, de ouro ou de palácios de um país; ou como no Reino do Douro, por pipas exportadas…). A segunda razão prende-se com a meteorologia – todos gostam de saber o estado do tempo, mesmo que não gostem do meteorologista ou que não acreditem nele. Também todos (curiosamente) passaram a gostar de saber o rating da Standard&Poor’s, o valor do PIB per capita em termos constantes, os índices bolsistas e outros valores esotéricos. Curiosamente, já ninguém quer saber de outras coisas menos importantes para esta divindade: o idoso que mora no andar de cima, o primo do interior, os filhos do vizinho que emigrou… E finalmente, o deus pib (e outras semi-divindades) tem tido um grande proselitismo assumido por quem tem muito PIB. É um pouco como perguntarmos a quem tem muitas conchas se a moeda deveria ser medida em conchas ou em árvores – a menos que esse detentor de muitas conchas não queira passar por rico, a resposta mais provável é querer valorizar os seus activos e portanto desejar que as conchas sejam a moeda de circulação.
Foi aceite, para publicação pela revista Agrekon (indexada no Social Sciences CItation Index), o meu artigo “The African aid trap”, onde demonstro que afinal a ajuda aos países africanos pelos países ocidentais está condicionada ao PIB per capita dos receptores, favorecendo os países mais ricos de África. No lugar de diminuirmos o ciclo de pobreza de uns, aumentamos o ciclo de riqueza de outros. Afinal, nem todos os pobres são iguais para o deus pib.